quarta-feira, 2 de abril de 2014

e assim se perdem os nossos bons campos.

Não se vêem vírgulas entre as casas, o que torna tão difícil a sua leitura e as ruas tão cansativas de percorrer.
A frase nas cidades é interminável. Mas fascina, e os campos são abandonados pelos trabalhadores outrora corajosos que agora querem inteirar-se por si próprios do texto admiravelmente retorcido, de que toda a gente fala, tão difícil de seguir, não raro impossível.
Embora tentem fazê-lo, esses trabalhadores opiniosos, andando sem cessar, lambem à passagem as doenças dos esgotos e a lepra das fachadas, mais do que o sentido que continua oculto. Drogados de miséria e de fadiga, deambulam em frente das montras, desviando-se por vezes do seu intuito, a sua busca nunca… e assim se perdem os nossos bons campos.

Henri Michaux . Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato

1 comentário:

jardimviajante disse...

Comovente! Felizmente hoje em dia já se pode observar que há cada vez mais pessoas que fogem das cidades para viver no campo, longe da confusão e stress.

Cumprimentos,
Kasia