sexta-feira, 1 de junho de 2007

E a diversidade?

Alameda com celtis australis . Lisboa

No último volume publicado (nº7 – Floresta e sociedade uma história em comum) da colecção Árvores e florestas de Portugal, um dos capítulos é dedicado às árvores de Lisboa. Com base em levantamentos feitos em 1929, 1939, 1981 e 2003 é apresentada uma lista com as 10 variedades de árvores mais utilizadas em Lisboa nas respectivas datas. Confirmei por lá um dado que há muito tinha constatado quando como é hábito ando de cabeça no ar. A grande vencedora neste top 10 das árvores de Lisboa é sem margem para dúvidas e ao longo dos 70 e tal anos a que se refere o estudo, o LÓDÃO BASTARDO (celtis australis) também conhecido em Portugal por: Agreira, Lódão, Lodoeiro, Ginjinha-de-Rei, Nicreiro, Lamigueiro, Lodo ...

É uma árvore que nunca me entusiasmou, fiz uma pesquisa rápida sobre esta espécie, esperando ver confirmadas as desconfianças que ela me suscitava, mas cheguei à conclusão que os responsáveis pelas árvores de Lisboa escolheram uma árvore para a qual dificilmente são encontrados defeitos. Este Lódão bastardo é só qualidades e cumpre à risca e com nota máxima todas as exigências que lhe são feitas na cidade. Madeira de grande qualidade, resistência à poluição e às doenças, frutos (drupas) comestíveis muito apreciados pelos pássaros, boa adaptação ao tipo de solos e clima de Lisboa, é inclusivamente, embora o seu nome possa induzir a engano, espontânea em Portugal o que politicamente falando só lhe fica bem, não tem características invasoras porque embora seja fácil de reproduzir por semente a germinação exige condições especiais, é uma árvore muito disciplinada, limpinha e bem comportada, tudo qualidades apreciadas pelos, pouco criativos, jardineiros da capital. Não é por acaso que ainda analisando este top 10 confirmo que a utilização das árvores mais indisciplinadas, mesmo quando cheias de atractivos como é o caso das Olaias é cada vez menor.

É impossível sair à rua em Lisboa sem ver um Lódão bastardo, ou mesmo uma rua ou avenida repleta de Lódãos bastardos todos muito arrumadinhos e direitinhos como convém. Perdoem-me os pobres Lódãos que não têm culpa, mas a verdade é que já nem os posso ver são enfadonhos e monótonos estes Lódãos de Lisboa. Desconfio que os Lisboetas devido ao convívio forçado com esta enorme quantidade de árvores normalizadas e sem alma começam também a ficar todos iguais, cinzentos e infelizes.

4 comentários:

Pedro n. t. santos disse...

Concordo em absoluto com a necessidade de diversidade nas árvores das cidades e, sobretudo, no especial cuidado a ter com:
- a não introdução de espécies invasoras, como as acácias australianas ou os ailantos;
- a adequação da espécie (e do número de exemplares a plantar)ao espaço que esta irá ter para poder crescer.

Eu também não morria de amores pelo lódão-bastardo mas reconciliei-me com ele em Braga (isto foi antes de serem decepados pela respectiva Câmara Municipal), onde também é muito plantado...de facto, é das poucas espécies autóctones utilizadas nas cidades portuguesas (ultimamente, também se tem apostado no plátano-bastardo...diria que vivemos numa época propícia aos "bastardos" :)
Outra espécie autóctone muito comum é o choupo-branco que parece no entanto estar " a passar de moda"!

O tempo é mais propício aos carvalhos americanos e outras espécies exóticas.

Ver disse...

Não fique a ideia que eu não gosto dos Lódãos, o que não acho graça é a esta atitude conformista de que está encontrada a árvore perfeita para Lisboa e por isso já não temos de pensar mais no assunto.

Anónimo disse...

Acresce que os lódãos bastardos com muita frequência estão infectados com vírus(quando as folhas aparecem maculadas de branco ou manchas cloróticas em mosaico).
De qq modo as ruas são preferíveis com as árvores mesmo doentes do que nuas, sem nada.
Duarte Marques

Miguel Drummond de Castro disse...

As árvores devem ter o direito absoluto de morrer de pé, e de não serem vítimas da próxima esvoçante mudança de um PDM ao sabor de interesses "sempre" mercenários e que como cabeça quadrada que são nunca levam em conta os habitats.

Eu acho mesmo que deviam ser consideradas como cidadãos de pleno direito, com os mesmos direitos que qualquer um de nós. E não como para-cidadãos menores.Uma sociedade verdadeiramente evoluída assim o faria.

Devia existir um "advogado das árvores" (ou uma organização jurídica especificamente dedicada a assegurar a qualidade da sua vida) que defendesse a continuidade da sua presença.

Miguel